recortes
de um cotidiano escrito
Escrever essa newsletter e saber que tanta gente a lê me mantém atenta às pequenezas da vida, da poesia à literatura, passando pelas receitas. Este é um agradecimento sincero a quem apoia o Jornalzinho, seja como assinante gratuito ou apoiador. Vocês fazem toda a diferença no meu cotidiano como escritora e cozinheira!
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foto Nani Rodrigues
Fiz uma oficina de escrita com a Nina Rocha (a mesma escritora que publicou comigo a última edição dessa newsletter em collab), onde ela nos desafiou a unir trechos aleatórios escritos pelo celular ou em cadernos. Abri meus muitos caderninhos, apontei para algumas páginas e copiei sem reescrever notas aleatórias dos últimos anos. Recomendo que façam o mesmo, rendeu boas risadas por aqui:
se eu fosse uma jabuticaba gorda numa jabuticabeira muito bem regada, eu estaria no auge da minha arrogância natural de fruta perfeita, a mais mais. cheia, brilhando, pronta para cair na mão de alguém que teve a sorte de estar no lugar certo. ,inha maior diversão seria manchar dedos, roupas claras e memórias, porque certas coisas só existem direito quando deixam marca (2020)
a maior parte das vezes que tomo uma decisão ruim na cozinha, é um erro consciente. passa um pensamento intrusivo que vou esquecer a canela ligada no fogo, e pimba, um perigo! hoje eu estava corrida e sabia que o forno elétrico não estava quente o suficiente para receber o pão de queijo, mas insisti em assar mesmo assim. obviamente me arrependi diante do resultado murcho (2021)
estou cronicamente online e me sinto triste. rolo a tela para não ter que dar nome ao que estou sentindo, mais fácil tentar achar dopamina no reflexo azul. meus olhos lacrimejaram e duvidei da minha capacidade de sair dali quando as mãos começaram a formigar com o peso do celular. levantei, coloquei o celular na gaveta e fiz um bolo. ele vai ficar lá até amanhã, quando inevitavelmente preciso responder meus clientes. o dia ganhou mil horas, mas amanhã estarei cronicamente online de novo, que broxante essa dopamina de um centavo (2022)
acabei de chegar do Centro, comi um pastel de queijo com orégano e de sobremesa coquinho caramelizado num daqueles carrinhos que cheiram a rua inteira. comprei um zíper, enchimento para as almofadas, comi uma empada de queijo com jiló, uma Tradicional Limonada, um pedaço grande de abacaxi amarelo, comprei um pacote de palmito pupunha, uma bandeja de caquis gordos e dois pães (coisas que só o Mercado Central de Belo Horizonte proporciona). quando cheguei em casa, a orquídea tinha acabado de brotar. se o dia continuar assim, estarei bem. (2024)
a comida mexe com imaginário coletivo de um jeito muito bonito: estou na China e acabo de conhecer dois amigos que vieram juntos do Peru para cá. passamos horas falando do milho, de como nossas frutas são mais doces, da alegria de comer sopa no café da manhã no hotel durante dias e a loucura de aprender a lidar com novas tecnologias: um robô acabou de entrar no meu elevador pra entregar uma xícara de café no décimo segundo andar (2025)
coisas da gastronomia que são muito cringe (só de usar a palavra cringe, tô sendo cringe em dobro, até porque eu mesma faço algumas delas):
flores inteiras para decorar prato (pelo menos só faço isso com as super delicadas, tipo amor agarradinho, minúscula)
hambúrguer (o auge da comida colonizada continua sendo minha larica preferida)
qualquer cozido com cerveja preta
camarão à campanha (amo forte)
folha de ouro (nunca cometi)
pizza com borda de queijo (haja lactase para digerir tanto queijo sobre queijo: adoro)
risoto (o auge da breguice, delicioso aos olhos dos boomers e alguns millenials)
papo de homenagear cozinha ancestral
papo de cozinha afetiva
qualquer coisa servida com muito plástico na embalagem
canapés recheados de qualquer espécie, especialmente os com gosto de ovo pasteurizado
parmegianas (se for com extrato de tomate barato, pior ainda; mesmo assim, amo as de frango)
fermentação online
Em breve eu e a equipe da Brejo.co vamos lançar meu curso online sobre fermentação e não poderia estar mais feliz: esse é um trabalho que está no forninho há três anos, se eu considerar os primeiros rabiscos do roteiro.
Quem se inscrever vai ter acesso a vários vídeos exclusivos feitos com muito cuidado ao longo de meses.
A foto da capa dessa edição é um recorte dos muitos dias de gravação, e a lista de espera para quem se interessar está aberta!
vivi e amei
me senti na China comendo no restaurante Tang Palace (Bairro Bom Retiro, São Paulo): eles servem Dim Sum, um café da manhã com uma variedade incrível de pequenos pratos, por preços que vão de dezoito a oitocentos Reais.
maratonei o canal da Marcella Cabral no YouTube (inclusive tem vários vídeos sobre fermentação por lá, são lindos)
reli Deve Ter Sido Alguma Coisa Que Comi, do Jeffrey Steingarten, e me senti inspirada pelas muitas viagens e pratos descritos, é delicioso saber que existem pessoas tão obcecadas por comida quanto eu. a última vez que um livro culinário me tocou assim foi A Cozinha Baiana de Jorge Amado, da Paloma Jorge Amado.
coloquei o YouTube aberto na TV da sala e assisti vários papos seguidos do Chevetalks, com o Patrick Maia, morrendo de rir das bobagens. às vezes tudo que a gente precisa é desligar o cérebro da necessidade de produzir.
convite
foto: Laís Gouvêa
Nesse domingo eu e a Bela Righi estaremos com PAPILEX (nosso novo livro) na Banca Crianceira às 10h (Praça JK, BH/MG).
Esperamos vocês para uma oficina de serigrafia nessa praça deliciosa. Tragam as crianças e, se puderem, levem panos para sentarmos no chão e, quem sabe, um lanchinho para compartilhar. Vamos passar uma manhã gostosa, cheia de arte e livros!
Com amor e com fome,
Carolina Dini





fala de BH, SP, China, mas nao tem Paty do Alferes nem RJ. saudades ainda bem que te leio e beijos.
um recorte de felicidade: ler Jornalzinho com um café na mão enquanto um bolinho de banana cheira a casa toda