Geladeira
nenhuma experiência é única
A geladeira é um território sem lei. Abro a porta com zero fome, o tédio me faz sentir o bafo frio no rosto, e já sei: o pote de plástico amarelo com restos do arroz de cebola com amendoim de ontem, o queijo quase no fim, a batata que começou a brotar no canto, um monte de picles de datas diferentes, um pote com missô quase no fim, nada de novo apesar da minha insistência.
Tem dias que fazer almoço é a última coisa que quero, acordo já sabendo que vou comer de novo frango com salada mais ovos e beterraba cozida no vapor, mas juro pra mim mesma que vou colher salsinha do vaso da janela e preparar um molho mais criativo (passei a semana inteira tentando me recuperar de um mês de extrema gulodice). Aí eu corto o sachê com a tesoura errada, a água transborda, o ovo quebra na bancada, e mesmo assim, quando sento no sofá com a tigela fumegando no colo já pensando na pia de louça para lavar, o silêncio parece um abraço.
Meu melhor remédio pra ansiedade é cortar cebola. Não tem como chorar de nervoso se você já tá chorando por causa do enxofre. O movimento da faca afiada, o barulho crocante, a casca roxa tingindo a tábua e minhas mãos: tudo uma meditação violenta. Depois que refogo, jogo sal, alho e páprica, o cheiro invade a casa igual aviso: tão fazendo algo gostoso aqui. E aí até o relógio de pulso marca a respiração mais calma (68bpm), funciona melhor que app de meditação guiada.
Na porta da escola estadual um cachorro branco com tons de barro descansa tomando sol. Atravesso uma sala azul com bandeirinhas que estão ali há pelo menos três anos e chego na biblioteca, cheia de livros interativos. Na mesa forrada com um papel pardo, ingredientes descansam sobre cumbucas coloridas. O gengibre foi conectado com o cominho, tomate e zaatar. O feijão fradinho encontrou manjericão e coentro. Um casal lembra vividamente da mexerica perfumada dos bolos das cinco da tarde, uma senhora fala do ensopado de chuchu da infância, a outra do quiabo inteiro refogado com tomate, afirmando que não dá baba. O corpo também tem a memória da comida: do contrário, como eu saberia depois de tantos anos que a pontinha do lápis que eu mordi na infância é meio amarga?
O melhor lanche do mundo é aquele que você monta com o que sobrou da semana. Um triângulo de pão sírio, hummus que já tá no fundo do pote, picles de quiabo, azeitona preta esquecida, dois pedaços de queijo que não combinam entre si, e uma folha de alface murcha que dou um jeito de avivar com gelo e água fria. E é tão gostoso que dá até raiva, acho que é o gosto da criatividade desesperada.
Banana amassada com aveia e canela foi a primeira coisa que aprendi a fazer sozinha. Eu tinha pouca idade, usava um garfo pequeno e uma tigela branca e laranja que ficava na segunda gaveta. A textura parecia cola, mas eu comia com orgulho. Hoje, quando tô sem rumo, ainda faço essa papa. Parece que amassar a banana é também amassar um pouco do caos do dia.
Comer em pé na cozinha é uma arte subestimada: você abre a geladeira, pega um pedaço de queijo gelado, morde uma fatia de pão dormido, bebe um gole de suco oxidado de tangerina direto da caixa. Não tem cerimônia, não tem talher, não tem julgamento. É o oposto do restaurante, do prato bonito, do stories bem iluminado. É só você, a fome real e o silêncio da pia. Às vezes, a refeição mais honesta do dia é essa, de olho na geladeira aberta, pensando em absolutamente nada.
E se a gente deixasse a comida viva por mais tempo?
foto da Nani Rodrigues para o meu curso de fermentação
Não por frescura nem por moda, mas pelo prazer de ver um pote de repolho borbulhando sozinho na bancada da cozinha. No curso Fermentação Viva, eu reuni tudo o que gostaria de saber no começo: utensílios que realmente funcionam, receitas sem enrolação, e uma comunidade no WhatsApp onde a gente troca foto de fermentado e tira dúvida. É pra quem tem medo de estragar, é pra quem não tem paciência, é pra quem quer colocar a mão na massa, literalmente. As vagas são poucas (50 alunos), e a gente fermenta junto por um ano inteiro. Vem comigo? Clica aqui e se joga nos potes, as incrições estão abertas e a primeira turma já está se formando:
Com amor e com fome,
Carolina Dini





Impossível não se identificar com geladeira aberta e a esperança irracional de que algo novo tenha aparecido..
que lindo! super me identifico com comer em pé, normalmente naqueles dias cansativos mentalmente, em que a simplicidade é a chave